Resenha | Bom dia, Sr. Mandela – Zelda la Grange
Em parceria com Jagleyde Firmino Rodrigues Lima.
Na história da humanidade poucos líderes foram tão enaltecidos quanto Nelson Mandela. Dono de uma alma inquebrável e de uma grandeza capaz de perdoar seus carcereiros em prol de uma nação, saiu da prisão para se tornar presidente e unificar um país.
A unificação conseguida por Mandela foi possível graças a todo conhecimento que ele adquirido ao longo de sua trajetória, e também por ter ao seu lado uma equipe capaz e pronta para a árdua tarefa. Dentro dessa equipe, se destaca Zelda la Grange, a improvável auxiliar que conquistou a confiança de um dos maiores presidentes que o mundo já viu. A história dessa amizade é contada pela própria Grange no livro Bom dia, Sr. Mandela, trazido ao Brasil pela editora Novo Conceito.
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Na obra, Bom dia, Sr. Mandela, Zelda La Grange, apresenta um relato emocionante sobre como foi conviver ao lado do grande líder humanitário Nelson Mandela, enquanto secretária pessoal. Inicialmente tido como inimigo, o presidente terminou marcando a vida da autora, servindo como um professor que ensinou as mais valiosas lições. Para uma melhor compreensão dos fatos narrados, a autora dividiu o livro em 4(quatro) partes principais – “Se for bom não deixe morrer”; “O começo de uma nova aurora”; “Guardiã do homem mais famoso do mundo” e ” O que vem depois?”; além disso, ela apresenta um prólogo e agradecimentos (também valem a leitura).
No Prólogo, a autora prepara os leitores para o relato que virá a seguir. Ao trazer um breve histórico do panorama político que era a África do Sul nas décadas passadas e a intimidade de “neta” que ela construiu com Mandela, já é possível perceber a forte carga emocional que o livro trará.
A primeira parte da obra se chama “Se for bom não deixe morrer” e aborda acontecimentos ocorridos entre 1970 e 1994. Nele, Grange narra como foi sua infância e como o histórico familiar contribuiu para que ela fosse uma apoiadora do sistema de segregação racial, o Apartheid.
Os anos de 1994 a 1999 são abordados na segunda parte do livro, intitulada “O começo de uma nova aurora”. Aqui a autora apresenta como foi o início de trabalho com Nelson Mandela na presidência, os desafios encontrados para formar um governo representativo e a deficiência de ter uma mão de obra qualificada, fruto de uma exclusão educacional no período do Apartheid. Outros pontos que merecem destaque foram à relação próxima que Mandela estabelecia com as pessoas a sua volta, a rotina simples adotada por ele e em como as coisas aconteciam de uma maneira muito veloz, o que constantemente demandava da equipe agilidade na tomada de decisões e necessidade de adaptação frente aos desafios que eram postos.
Em “Guardiã do homem mais famoso do mundo”, período compreendido de 1999 a 2008, Grange relata os arranjos que a equipe sempre procurou fazer, ao longo das viagens e na rotina de trabalho, para dar mais conforto a Madiba, afinal ele sempre teve uma saúde frágil, muito por conta dos vinte e sete anos em que esteve preso – esses arranjos, em muitos momentos, eram um desafio muito grande por conta dos inúmeros países que era visitado e também pela imensa comoção que a presença de Mandela causava. Outro destaque trazido pela autora era sobre o planejamento das férias presidenciais e as relações que estabeleceu com alguns dos amigos do presidente – assim alguns a viam com desconfiança por ser branca, outros a respeitavam muito. A autora conta ainda como uma das maiores missões de sua vida, a frente do trabalho com Mandela, foi arrecadar fundos para celebrar o nonagésimo segundo aniversário do presidente – onde se recebia milhões de pessoas de todos os lugares. Essa campanha reflete o legado de Mandela, em promover a igualdade e sempre ajudar o próximo.

A última parte do livro, chamada O que vem depois?, se passa nos derradeiros anos de vida de Mandela (2009-2013). Podemos ver que ao longo de toda sua vida, Nelson Mandela sempre foi um homem que buscou servir a humanidade com todas as suas forças, o que nem as limitações da idade o impediu de fazer. Nessa fase de despedida, aprendemos um pouco sobre como se deu a transição de governo e as honrarias que foram prestadas a um homem, que inegavelmente, entrou para a história como um dos maiores líderes que o mundo já viu.
Em tempos em que os negros continuam sendo alvos de todo tipo de discriminação, e em muitos casos, de assassinatos de forma tão torpe e incompreensível; a obra Bom dia, Sr. Mandela cumpre com maestria o propósito de informar e fazer refletirmos sobre as mazelas de um sistema de segregação racial e fortalece a fé na humanidade, afinal quando temos bons líderes, é possível guiar a população no caminho de redenção e prosperidade.
…você fica melhor, sente-se melhor e vive melhor se acredita que nossa humanidade comum é mais importante do que nossas diferenças de interesses.
Curiosidade:
Zelda la Grange nasceu em 29 de outubro de 1970. Ela cresceu na África do Sul e fazia parte da população branca que apoiava o sistema de segregação racial.
Quando se é criança é fácil acreditar que o ambiente é seguro. Talvez se eu tivesse sido oprimida, se não tivesse acesso a uma escola decente, uma casa adequada, eletricidade e água, pudesse ter feito perguntas diferentes, e meu cérebro teria se desenvolvido e se tornado mais inquisitivo sobre a injustiça quando eu era mais jovem.
Com a queda do Apartheid, viria a se tornar uma das assistentes de confiança de Nelson Mandela, aprendendo a respeitar e a honrar o homem que sempre lhe disseram ser inimigo.
Como formação, ela possui um Diploma nacional pela Universidade de Tecnologia de Tshwane. De 1994 a 1996, ela atuou como datilógrafa de Mary Mxadana, secretária executiva particular de Nelson Mandela. Em 1996, foi promovida a secretária particular assistente e, em 1999, passou a ser Secretaria Particular do Gabinete do Presidente. Ela foi um dos membros fundadores da Fundação Nelson Mandela que serviu como escritório pós-presidencial para Nelson Mandela.