Contos | Melror: O Contador de Histórias – Caio Ribeiro

Era mais uma noite no pequeno vilarejo de Riverhull. Um pequeno grupo de crianças combinou de se encontrar ao lado do poço para ouvir as histórias do velho Melror, um senhor que há muito tempo vivia no vilarejo e passara a vida por lá, adorado por todos, ajudando sempre que podia. Melror era conhecido por contar ótimas histórias que sempre fascinavam os moradores, desde histórias de magos e bruxas até cavaleiros e princesas. Naquele dia em particular, ao Crepúsculo, as crianças correram em direção a Melror:

– Melror! Melror! Já está na hora! – gritou uma das crianças.

– Sim! Sim! Conte-nos uma das suas histórias! – falou outra.

– Pelos Oito! Já está na hora? O tempo está passando mais rápido a cada dia que passa. Ou eu que estou ficando velho. – respondeu, rindo – Ok, ok, façam uma roda em volta de mim e vamos começar!

Dito e feito! As crianças adoravam tanto Melror que um pedido do senhor era uma ordem. Ao terminarem de se sentar, Melror começou a falar, e as crianças ficaram em absoluto estado de atenção. Com um ar pensativo, ele disse:

– Que tal a história do Bastardo John e a Donzela Daphne? Já contei essa? Ou a do Mago Verlron e a bruxa Veera? São minhas duas preferidas! – Você já contou essas! Queremos uma com ação! Com um Cavaleiro que derrote as forças do mal!

– Mas e vocês meninas? Vocês não querem uma de princesas e donzelas em perigo? – perguntou Melror.

– Nããão! Nós brincamos de espadas hoje nos estábulos, queremos ouvir uma de ação também!

Melror ficou surpreso, não era assim que acontecia geralmente, ele já contara todas as boas histórias de ação! A não ser que ele contasse uma das únicas que ele guardava para si mesmo…

– Vocês me convenceram, vou contar uma de ação. Porém essa é um pouco mais obscura do que o normal, não deixem seus pais saberem disso, combinado?

– Combinado! – responderam em unanimidade.

– Bem, preparem-se, pois essa é a história de Hilver Jonah e Rurhak o Abismal…

‘’Há muito tempo havia um jovem Soldado, forte, de olhos marrons como uma noz e cabelos loiros como o Sol no meio do dia. Seu nome era Hilver Jonah. Ele comandava uma guilda de aproximadamente 30 a 40 soldados. Eles viajavam em busca de trabalhos que iam desde recuperar uma base para o rei, como acabar com algum grupo de bandidos saqueadores, e eles eram muito bons nisso! Hilver sempre levava seu filho Silas em suas viagens, para que um dia ele pudesse se tornar o chefe do grupo. Um dia, o rei de Hofgar deu um trabalho a ele, com uma bela recompensa que ele não podia recusar. O trabalho consistia em dar um fim ao grupo de Orcs saqueadores, comandado pelo Orc chefe, conhecido como ‘Rurhak o Abismal’. Hilver aceitou o trabalho, porém explicou a seu filho que esse seria o contrato mais perigoso que já aceitara, e decidiu deixá-lo aos cuidados de seu companheiro de grupo, Meiral, até que voltasse. Silas insistiu em ir, mas seu pai explicou que os Orcs eram criaturas mpiedosas que adoravam carne de crianças. Isso foi o suficiente para Silas aceitar não ir.

Por 57 dias e 57 noites eles cavalgaram, passaram por Montanhas e Lagos, Vilarejos abandonados e povoados amistosos, enfrentaram fome e sede, Trolls e Aranhas gigantes, até que, enquanto faziam uma pausa para comer, um dos batedores veio correndo para reportar que avistara o grupo de Orcs de Rurhak, e que havia aproximadamente 150 ou 200 deles. Todos ficaram assustados, mas Hilver os lembrou que eles eram fortes, e que estava carregando a espada mística Dente de Ror.’’

– Dente de Ror? O que era a Dente de Ror? – uma das crianças interrompeu para perguntar.

– Bem, a Dente de Ror foi uma espada criada na forja de Ror, a lendária Forja do Sul. O aço foi dobrado várias e várias vezes sobre si mesmo, o que fazia dela muito afiada! Ela continha poderosos feitiços que ninguém ousava questionar, e continha o brasão de Ror, uma Serpente com olhos verde-esmeralda.

– Ah sim, continue a história Melror!

– Pois bem…

‘’Hilver sugeriu seguir os rastros dos Orcs, assim não seriam descobertos tão cedo e teriam o elemento surpresa ao seu lado. Pois foi o que fizeram. Por mais uma semana, seguiram os rastros dos Orcs. Não era tão difícil de ver, grandes pegadas no chão, urina, fezes verdes e sangue respingado na estrada. Porém, enquanto se preparavam para voltar a cavalgar depois de uma noite fria, os Orcs apareceram e cercaram o grupo de Hilver. Todos imediatamente se levantaram e pegaram suas armas. Os Orcs começaram a rir e debochar do pequeno grupo. Rurhak, o líder, se aproximou de Hilver e debochou:

– Vocês realmente acham que podem destruir o grande Rurhak e seu grupo? Vocês são engraçados! – os Orcs riram ainda mais.

– Ora, se não formos nós, quem mais irá fazê-lo? – dessa vez quem riu foi o grupo de Hilver.

Rurhak rosnou de raiva.

– Destruam todos e me tragam a cabeça do homenzinho de cabelo amarelo. – disse, andando em direção do bando e desaparecendo no meio de tantos Orcs.

Foi uma grande e sangrenta luta. O grupo de Hilver era pequeno, mas eles eram rápidos, enquanto os Orcs eram grandes e Lentos. Muitos companheiros caíram, mas para cada humano caíam três Orcs.

Em certo ponto da Batalha, Hilver avistou Rurhak acabando com 3 de seus companheiros, o que lhe deixou muito nervoso. Sacou a Dente de Ror e correu na direção de Rurhak. Quando o Orc o viu, levantou sua Marreta de guerra. Hilver rapidamente desviou para o lado, procurando uma maneira de acabar com aquele monstro, mas o único ponto vulnerável era sua cabeça, e Rurhak era o dobro de seu tamanho. Mas Hilver teve uma ideia: quando Rurhak errou um golpe com toda sua força, sua marreta ficou presa no chão; Hilver correu por cima da Marreta, e com um corte limpo, separou a cabeça do Orc de seu corpo.

Hilver levantou a cabeça e gritou para o bando se render, o que eles obedeceram sem questionar. Quando Hilver se sentiu fraco e tonto, percebeu que levara um golpe de uma Espada Orc envenenada de raspão. Porém, era o suficiente para o veneno o matar, mas Hilver não contou aos demais colegas. Durante a noite, depois da comemoração, quando todos dormiam, Hilver desapareceu. Ninguém nunca soube para onde ele foi ou o que aconteceu com o seu filho. Dizem que ele morreu, que os Orcs o capturaram. Outros dizem que ele velejou para longe e mudou de nome, mas ninguém realmente nunca soube. E esse é o fim da história de hoje, crianças.”

As crianças aplaudiram e elogiaram. Melror adorava isso.

– Oh! Mas como está tarde! Melhor vocês irem, crianças! Não quero que seus pais fiquem bravos!

Todas foram para suas respectivas casas, inclusive Melror, que adormeceu rapidamente. Não se lembrava de estar tão cansado assim…
O dia seguinte amanheceu triste, pois Melror nunca acordou. Todos ficaram tristes, porém não surpresos. Afinal, Melror já havia alcançado uma idade bem avançada. Dois dias depois, chegou a Riverhull um cavaleiro loiro de olhos marrons, acompanhado por um pequeno grupo de soldados. Ele diz que conhece o velho Melror e que gostaria de acender a fogueira para cremar seu corpo. Enquanto caminhava, uma criança olhou encantada e não resistiu:

– Você é Hilver? O Cavaleiro matador de Rurhak, o Abismal?
O Cavaleiro riu e disse:

– Não, meu nome é Varius. Muitas pessoas me confundem com o lendário Hilver, mas sou apenas um cavaleiro da guarda real que conhecia o velho Melror. Adorava suas histórias quando pequeno, por isso vim.

Varius se dirigiu ao local da fogueira, onde estava o corpo do velho Melror. Ele se aproximou, apoiou uma mão no peito do corpo, e disse em um sussurro:

– Que os Oito o guardem durante sua jornada para o Mundo do Além, e que obtenha paz e descanso depois de tantos anos. Sentirei sua falta, pai.

Varius afastou-se e acendeu a fogueira. Poucos minutos depois, um mensageiro o chamou para conversar:

– O velho Melror queria que você ficasse com isso. Veio com uma carta junto.

O mensageiro entregou um pacote comprido e um pouco pesado. Varius o colocou no chão para ler a carta, que dizia, nas letras de Melror:

‘’Silas, meu filho, quero que fique com este presente. Que você realize grandes feitos
com ela.
Com amor.
Hilver J. ’’

Varius guardou a carta e abriu o pacote. Era uma espada afiada com o símbolo de uma cobra com esmeraldas nos olhos.
Dente de Ror.
Segurando a espada, Varius sorriu e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Observava as cinzas de seu pai subirem ao céu e desaparecerem na noite.

Conto escrito por Caio Ribeiro.

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