Contos | Longe de Humberto – Anderson Câmara

Longe de Humberto

Shirlei tinha apenas dezessete anos quando noivou, era dezembro de 1968. O plano original do jovem casal era festejar o compromisso na festa de natal, mas Humberto disse que precisaria viajar de volta ao rio em uma semana, pois seria a formatura de sua irmã. Ele tinha vinte, era aluno de filosofia na Universidade de Brasília, e os dois tinham se conhecido um ano antes, na Esplanada dos Ministérios. O primeiro beijo tinha sido ali mesmo, no vasto gramado verde, tendo o céu e suas livres estrelas acima e a opressão praticada e planejada nos edifícios que os cercavam.

É claro que Shirlei se inquietou com o anúncio da viagem, seria para tão longe… Mudando seus sonhados e imaturos planos, nascidos naquele dia do primeiro beijo, cercados de elementos tão romanticamente contrastantes. Aquele beijo, dissera ele, fora um protesto de duas pessoas, a prova de que o amor resiste até mesmo à opressão. E ele estaria no Rio de Janeiro, naquelas paisagens mais bonitas que os horizontes estéreis do Planalto Central, com tanta gente a mais que em Brasília, a terra dos românticos e musas de poetas. E aquelas mulheres nas praias, mais maduras que ela, mais ousadas que ela, mais liberais que ela, mais bonitas que ela, menos vestidas que ela. Como todo bom ser humano, ela não se importou com o que acontecesse ao resto do Brasil, com estudantes apanhando de polícia ou rumores de tortura, nem com a vida acadêmica de sua desconhecida cunhada. Queria-o ali, e pronto! E que só quisesse ela. Chorou de angústia quando Humberto enfim partiu, e angústia por não ter certeza das alegações do noivo. Imaginava-o cercado de velhas amigas de colégio, de primas com quem mantinha segredos, com uma infinidade de mulheres.

Estavam noivos havia uma semana quando ele foi, e por mais uma semana ficava ansiosa esperando suas ligações. Quando vinham, ela buscava confissões inconscientes entre as poéticas juras de amor eterno e não o deixava desligar sem fazê-lo prometer meia dúzia de vezes que ela seria sempre única para ele. Mas ela tinha certeza que ele escondia dela alguma coisa, mulher não se engana quando tem suspeita, a mãe sempre acertava. Ela mesma não queria admitir que também desconfiava de alguma coisa secreta que o futuro genro estivesse fazendo tão longe.

Ao fim desta primeira semana de distância, Humberto parou de ligar. Shirlei não dormia, só comia a força, e não saía de perto do telefone nem deixava ninguém usá-lo, antes buscava provas de infidelidade, agora buscava deduzir algo que explicasse a ausência de contato do noivo. Há sentimentos que esfriam com o tempo, mas a agonia de Shirlei se engordava conforme a falta de notícias se estendia, a ponto de fazê-la adoecer. Já não tentava absolvê-lo em suas divagações, acusava-o em secreto, condenava-o e chorava. Tinha outra, já a esquecera. Engravidara uma carioca qualquer e fora covarde para nem sequer desmanchar o noivado, ainda que por telefone. Era um porco, cafajeste, traidor…

O natal passou, o ano novo, o carnaval, e enfim o telefone tocou. Era uma tia, dizendo que Humberto se metera com insurgentes e fora preso como guerrilheiro. A família no Rio só conseguira notícias subornando um jovem soldado do exército que tinha sido colega de escola dele. Não havia mais notícia alguma sobre Humberto, nem o amigo militar sabia. Shirlei foi hospitalizada depois disso, entre delírios de febre balbuciava aos ouvidos da mãe que Humberto fugira para o exterior com a vadia. A mãe não sabia se devia lamentar pelo abatimento físico ou mental da filha.

Mas Shirlei se recuperou, fez vinte anos e noivou. Casou aos vinte e dois, teve o primeiro filho aos vinte e cinco, viu-o se formar no ginásio aos trinta e nove, enterrou o marido aos cinquenta e oito e aos sessenta e um viu a Comissão da Verdade divulgar os nomes de opositores da ditadura que tinham sido assassinados em certa ocasião e o que tinha sido feito dos seus cadáveres. Lá estava o nome de Humberto.

Shirlei suspirou aliviada e disse:

– Ainda bem que ele não me traiu.

Conto enviado por Anderson Câmara.

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