Capacitor Recomenda | Fanzineston – HQs nacionais que misturam folclore e história

Dia 30 de Janeiro é o dia do quadrinho nacional. A data foi escolhido pois, em 1869, Angelo Agostini publicou na revista Vida Fluminense aquela que é tida como a 1ª história em quadrinhos do Brasil: As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte.

Para celebrar a data, trazemos para vocês uma recomendação de quadrinho nacional. Na verdade não apenas uma, mas todo um selo de quadrinhos nacionais. Estamos falando do Fanzineston, um selo do quadrinista Eberton Ferreira.

O foco de hoje será a série Causos. Nessa série, Eberton apresenta histórias do folclore brasileiro em quadrinhos que explora os gêneros terror, suspense e até policial. As histórias são envolventes e conseguem prender o leitor, fazendo-o por vezes até sentir a tensão no ar.

No primeiro número, a Causos #01 – O Demônio das Matas, o autor conta uma história que se passa nos primeiros anos do Brasil colônia. O personagem principal é Gonçalo, um jovem aventureiro vindo de Portugal que se une a Iberê, um nativo brasileiro, para solucionar um mistério que vem atormentando a Vila São Vicente.

A história é um tanto sanguinária e envolve assassinatos e amputações. E o principal ingrediente da história é o mistério. Não é exagero dizer que há um quê de Agatha Christie possivelmente como influência para o autor. Da mesma forma, há uma clara semelhança em relação ao mistério sobrenatural com as histórias do Scooby-Doo, em uma espécie de versão +18. Afinal, durante toda a história fica no ar uma dúvida se o tal demônio é mesmo sobrenatural ou é bem humano. Além do mais, o leitor se sente convidado a desvendar os enigmas e charadas junto com os personagens, tal qual fazíamos com a Velma do desenho animado. A sequência final é bem Scooby, onde os mocinhos desmascaram o vilão, só que aqui com bastante sangue.

O mais interessante aqui, é a forma brilhante que o autor encontrou para unir folclore (o tal demônio é o Curupira) e história real através de uma narrativa contagiante e bem amarrada. Certamente uma ótima leitura e que pode até ensinar sobre folclore e um pouco de história do Brasil. Só não seria aconselhável para um livro extracurricular, afinal, é desaconselhável para menores.

Já em Causos #02 – A Bruxa da Floresta, podemos perceber uma clara evolução artística do autor em diversos aspectos. A trama ficou ainda mais cativante e incluiu novos recursos narrativos, os desenhos apresentam mais detalhes e uma certa evolução visual no geral.

Aqui, Gonçalo e Iberê estão de volta 30 anos depois dos eventos da primeira história. Ambos estavam afastados de suas ‘aventuras investigativas’ mas se veem obrigados a voltar a atuar quando os mistérios passam a ser pessoais. Agora eles terão que desvendar enigmas ainda mais complexos e tentar provar que a tal bruxa, assim como o demônio de 30 anos atrás, não é sobrenatural. Acontece que o mito da Cuca nessa história é ainda mais forte, amedrontador e mais violento que o do Curupira na sua predecessora. Vale ressaltar que as histórias se conectam, mas não é essencial ter lido a primeira pra apreciar e entender completamente a segunda. Há ainda uma breve conexão com elementos religiosos ao final da história, onde o autor conta uma possível origem para o mito de São Jorge, como a capa da HQ sugere.

Não a toa a obra foi premiada. A Academia Brasileira de História em Quadrinhos (ABRAHQ) premiou Eberton como melhor roteirista de 2016 pela história. Além do mais, o autor praticamente inventou uma origem para o mito da Cuca, já que esta não tem uma origem oficial, apesar de muitos pensarem que ela foi criada por Monteiro Lobato em seu Sítio do Picapau Amarelo.

Todo fã de quadrinhos deveria dar uma chance a obra de Eberton Ferreira. Além de ser uma produção nacional de qualidade, que por si só deveria ser incentivada, suas histórias ensinam bastante sobre nossa identidade cultural e histórica. E olha que nem falamos das outras histórias, como Causos #03 – O Devorador de Almas, os Causos Especiais (A rede da carne e a Volta da rede da carne) e o super-herói brasileiro Xamã que tem duas hqs lançadas: volume zero e volume um.

Nem precisa dizer que os quadrinhos são lançados de forma independente, o próprio Eberton envia para a gráfica e vende suas histórias através de sua página no Facebook e nos eventos dos quais participa, por enquanto, essencialmente no Rio de Janeiro.

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